Museu dos verões dos anos 90: 31 peças pré-internet e pré-IA
Visita guiada.
Sejam bem-vindos.
O meu nome é Simão e hoje terei o prazer de vos acompanhar durante a visita.
Antes de começar, um pequeno aviso: neste museu não vão encontrar grandes obras de arte. Nada de Picassos. Nada de Velázquez. Nada de ecrãs interativos. Nem sequer audioguias com inteligência artificial.
Aqui só conservamos objetos de costumes. Quotidianos. Kitsch. Mas todos com uma habilidade extraordinária: conseguem devolver-vos um verão inteiro em menos de um segundo.
A VISITA EM 20 SEGUNDOS
31 peças dos verões dos anos 90 e início dos anos 2000, quando ainda não havia internet no bolso nem IA em lado nenhum.
Distribuídas por cinco salas: a praia (a bola da Nivea, a geleira azul, a sandes com areia), os sons (cigarras, ventoinha, o genérico dos desenhos animados), as texturas (a espreguiçadeira branca, a pele a repuxar depois do cloro), a tecnologia extinta (walkman, Tamagotchi, Game Boy, rolo fotográfico) e o que não se pode tocar: voltar para casa quando se acendiam os candeeiros, adormecer no carro e aborrecer-se.
Se fizerem o favor, sigam-me.
A visita está prestes a começar.
PLANTA DO MUSEU
Sala I. Pintura de costumes: a praia dos anos 90
As obras desta primeira sala foram pintadas diretamente na memória. Não tentem analisá-las demasiado. Limitem-se a olhar para elas.
- Nº 01
Óculos de mergulho com cuspo no vidro
Autor desconhecido, mas técnica ancestral que funcionava surpreendentemente bem.
- Nº 02
A bola gigante da Nivea
Provavelmente o objeto mais visto em qualquer praia entre 1990 e 2005.
- Nº 03
A geleira azul com panados e melancia
Óleo sobre plástico (e bem oleoso). São precisos dois adultos para a levar vinte metros pela areia.
- Nº 04
Dedos enrugados como passas
Série limitada. Só aparece depois de três horas seguidas na piscina.
- Nº 05
A marca do calção de banho
Instalação efémera. Disponível apenas em julho e agosto.
- Nº 06
A sandes com areia
A crítica continua dividida sobre se a areia fazia parte da receita.
- Nº 07
O gelado de poucos escudos
Natureza efémera. Duração estimada da felicidade: 30 segundos de lambidelas antes de o calor ganhar.
- Nº 08
O penso rápido no joelho
Obra recorrente. Nenhuma infância conseguiu expor só um.
Sala II. Audiovisuais: os sons do verão
Por favor, façam silêncio. Se ouvirem algum destes sons, não se assustem. É a nostalgia a fazer das suas.
- Nº 09
As cigarras às quatro da tarde
- Nº 10
O zumbido do mata-mosquitos elétrico antes do “zás!”
- Nº 11
A ventoinha a fazer “clac… clac… clac…” a cada volta
- Nº 12
O “ainda falta muito?” quando ainda faltavam duas horas de estrada
- Nº 13
O genérico dos desenhos animados
Hora oficial de sair da piscina.
- Nº 14
Os primeiros segundos dos Simpsons
O relógio mais preciso do verão.
Sala III. Escultura e texturas
Nesta sala é proibido tocar. Embora todos saibamos exatamente como é sentir cada peça.
- Nº 15
O plástico rugoso da espreguiçadeira branca
- Nº 16
A toalha áspera do terceiro dia de praia
- Nº 17
A pele a repuxar depois do cloro
- Nº 18
A lata azul de creme que nunca fechava bem
- Nº 19
Os chinelos a colarem-se ao chão da piscina
- Nº 20
O elástico da touca (ou dos óculos) a arrancar-te três cabelos de uma vez
- Nº 21
O banco do carro a escaldar depois de uma manhã ao sol
Sala IV. Tecnologia extinta: walkman, Tamagotchi e Game Boy
Os menores de trinta anos costumam achar que esta sala é ficção científica.
- Nº 22
O lápis para rebobinar a cassete
- Nº 23
O walkman que comia as fitas
- Nº 24
O Tamagotchi que morreu durante as férias
- Nº 25
O Game Boy inclinado a quarenta e cinco graus
Para encontrar o único reflexo em que se via o ecrã.
- Nº 26
O rolo fotográfico
Vinte e quatro oportunidades para não pestanejar.
Sala V. Património imaterial
Estas peças não precisam de legenda. Todos sabemos exatamente onde estávamos quando aconteceram.
- Nº 27
O topless na praia
Hoje, provavelmente, quem apanha sol em tronco nu és tu.
- Nº 28
Voltar para casa quando se acendiam os candeeiros da rua
- Nº 29
Adormecer no carro e acordar sem saber em que terra estavas
- Nº 30
O melão depois do jantar
- Nº 31
Aborrecer-se
A peça mais difícil de explicar às novas gerações.
A loja do museu
E com isto termina a visita. Podem passar pela loja do museu. Não vendemos ímanes para o frigorífico. Nem t-shirts. Nem canecas. Só um pensamento, à laia de final feliz:
Nenhuma destas peças ‘merece um museu’… e, no entanto, todas guardam algo muito difícil de encontrar hoje em dia: a capacidade de fazer com que três meses parecessem eternos.
Talvez não sintamos falta daqueles objetos. Nem sequer daqueles verões.
Talvez o que nos faz falta seja viver numa época em que não era preciso tirar o telemóvel para que algo valesse a pena.
Para sentir que estavas exatamente onde querias estar.
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